Arquivo da categoria ‘O Copo’

O Copo e as Cabeças-Chaleira

Outubro 28, 2009

capítulo/episódio 7

Eram dias obscuros no armário, havia muitos pratos sujos e tigelas ocupadas. O forro de papel do armário estava rasgando e ninguém na casa usava os talheres de sobremesa. Algo estava errado. As xícaras de café saiam e voltavam com uma rapidez espantosa. Já não restava panela alguma na prateleira de cima do armário. Eram dias obscuros. O copo se via no reflexo de um de seus cinco copos-irmão, e reparava em como era meio torto, meio desfocado. Pensava em como poderia continuar a procurar o pires, porque não aguentava mais olhar pra xícara mais velha e  sentir que ela estava triste. Sonhou que era um dos humanos da casa, e nas imagens, todos tinham cabeças de chaleira. Todos soltavam fumaça pelo nariz. Ele, copo, era um deles. Mas do armário, só ele estava ali. O copo estranhava a condição e sabia, tinha consciência de que era um sonho, mas estava gostando. E se lembrou do que Dona Claudia disse e caminhou com sua cabeça-chaleira até o quintal. Avistou ao fundo, do lado do tanque de lavar roupa, o gato. Olhou em todas as direções e não encontrou o pires. Seguiu o gato pela casa, que carinhosamente pediu que o copo lhe fizesse um afago, deitando no sofá depois disso. Viu as crianças. Elas pareciam copos cheios de água que se equilibravam para não transbordar.  O menino mais velho pegou uma panela (panela que era mesmo uma panela) no armário e o mais novo pegou um garfo (garfo que era mesmo um garfo) na gaveta. Houve uma encenação de luta e o gato miou muito alto. Quando o copo percebeu, viu o gato dentro da panela e com o garfo cravado nas costas. Sentindo pavor da situação, pegou o gato e sem saber o que fazer direito, pensou em jogá-lo na lata do lixo. E quando abriu a lata, teve outra surpresa. Lá estava o pires da xícara.

O Copo e as Facas Ginsu em: O Retorno

Outubro 20, 2009

capítulo/episódio 6

Faca – Oi copo san, vim te resgatar né! (sotaque japonês)

Copo – Você tá doido?! Cheirou foi?! Por acaso a gente tem pernas e braços ô seu japonês maluco?!

Faca – Fica tranquiro né! Eu cortei de leve o dedo do baixinho né. Logo a mãe dele vai ver a gente aqui né! (sotaque japonês)

Dona Claudia (falando ao telefone)- Já falei pro Marquinho não mexer nas facas do Alberto. E o Gustavo tira tudo do lugar, cê acredita que até o pires da xícara da mamãe ele colocou pra usar de tigela pro gato?!

Copo – Você ouviu isso?!

Faca - Lógico, não sou surdo né! E não falei que a mãe do menino ia tirar a gente daqui?! (sotaque japonês)

Narrador – Deixados na pia, o copo e a faca foram recebidos com alegria pelo canecão de leite e pela esponja que ia lavá-los. Mais tarde voltaram, a faca para sua embalagem junto às outras facas Ginsu, e o copo para o armário.

Xícara – Ô garoto, que bom ver você de novo. Sua colher de sobremesa também vai ficar contente de te ver!

Copo – Xícara, acho que encontrei o teu pires!

O Copo em Facas Ginsu: A Missão

Outubro 8, 2009

capítulo/episódio 5

As facas da casa também faziam às vezes de chave de fenda. O filho mais velho pegou uma das Ginsu para apertar o parafusinho da Ferrari miniatura que decorava a estante do quarto. De lá a faca Ginsu, cuja utilidade era de amanteigar os pães, pôde ver o copo em cima da escrivaninha logo abaixo da janela. Suas táticas diferenciadas incluíam se comunicar pelo reflexo da luz. Sabendo que as outras facas estavam perto da escada e portanto podiam perceber sua tentativa de comunicação, pôs-se à beirada da estante para cair e ser chutada onde a luz brilhava. Antes que você pense que ela se mexeu sozinha e essa história perdeu o rumo, digo que isso é quase impossível. Porém trata-se das facas Ginsu, conhecidas por nunca desafiarem. O menino mais novo gostava de mexer onde não podia e foi cutucar a faca que além de cortar de leve seu dedo,  fez com que a faca caísse e fosse chutada onde a luz refletia. A faca logo se dispôs a mandar os sinais de luz que refletiam no corredor da escada como código Morse. Com o choro do menino, o irmão mais velho o acudiu e pegou a faca do chão colocando-a ao lado do copo na escrivaninha.

-Oi copo san, vim te resgatar né! (sotaque japônes)

to be continued

O Copo e as Facas Ginsu

Setembro 24, 2009

capítulo/episódio 4

Elas eram estrelas de comercial. Faziam exatamente tudo na melhor forma possível. Suas lâminas afiadas  brilhavam. Elas eram o Rambo das facas. Mas nenhum outro habitante do armário tinha visto as facas em ação. As Facas Ginsu vinham de uma linhagem muito nobre, de ascendência oriental. Na maioria do tempo ficavam reclusas em sua embalagem. De lá só saiam para datas especiais e para serem polidas pelo pai da família. E em cima disso montaram sua estratégia. O pai as levaria até a sala de jantar e a partir desse instante elas estariam livres para explorar os lugares da casa. Mas, antes que vocês pensem que elas ganharam pernas e saíram andando por aí, explico que a possibilidade disso acontecer é nula. Mas como o Batman, elas aprenderam táticas de guerra diferenciadas. As outras facas do armário que cortavam, cerravam, passavam margarina no pão, serviam também como apontador de lápis, antena de tv velha e descascador de fios. Uma vez livres, se misturariam com as outras, podendo ser confundidas e usadas pelos membros da família. Após serem polidas, ficaram expostas na mesa da sala de jantar e já podiam colocar o plano em prática. Assim que o filho mais velho pegou uma delas, a ação começou.

to be continued

O Copo e o Pires da Xícara

Agosto 19, 2009

capítulo/episódio 3

Idos anos anteriores, quando aberta a embalagem, a xícara sentiu-se viva. Olhou os velhos azulejos e os móveis da cozinha e logo foi surpreendida com o pires embaixo dela gritando para que se mexesse menos. Sem entender muito da situação ela perguntou o que ele fazia ali. E o pires, em um momento de irritação, disse que aquele era o trabalho dele. Com o passar do tempo a convivência entre os dois ficou insustentável, até que em uma tarde fria e de chá na casa da família, o pires, brigado com a xícara, deixou que ela escorregasse. A rachadura permanente da xícara deixou-a quase sem uso. O pires não voltou ao armário naquela noite, e nem nunca mais. O copo, sabendo da história, decidiu que seria legal procurar pelo pires, mesmo depois desse tempo todo. Conversou com a colher de sobremesa, a Tramontina, que tinha contato com as tigelas, que disseram que o pires passou longos anos junto delas, mas que acabou sumindo de vez. A idéia era louca, mas com a festa de aniversário do pai da família, o copo teria uma chance de tentar procurar o pires. Para melhor identificação do pires, era só reparar em um escrito igual ao da xícara. Seria moleza para o copo. Seria. Se não fosse pelo caçula da família. O copo achou que fosse sua chance, mas foi esquecido no quarto e pra piorar, foi atacado por formigas. No armário, depois de dois dias sem notícias do copo, a colher se reuniu com a xícara e decidiram montar uma equipe de resgate. Procuraram pela melhor equipe de força em ação e encontraram.

O Copo e a Xicara Mais Velha do Armário

Agosto 5, 2009

capítulo/episódio 2

No verão, todos os copos ficavam ansiosos pelas Coca-Colas e cervejas. As colheres, garfos e facas adoravam cortar, espetar e fatiar bolos, pudins e sorvetes. Porém quietinhas, as xícaras ficavam quase que resplandecentes e intocáveis. Somente as xícaras de café eram usadas e muito pouco, por sinal. A velha xícara, observava à distância, toda vez que a porta do armário da cozinha se abria, o que acontecia do lado de fora com os copos e talhares da casa. Sentia sua rachadura doer de tanta curiosidade. O copo voltou ao armário já no fim da noite, e contou tudo o que viu, além disso, pode conhecer melhor a colher de aço inox. O nome dela era Tramontina, de família nobre. A xícara se fez de desentendida e passou a ouvi-lo. Em todos esses anos, não havia gostado tanto de um copo como desse. A xícara o achava engraçado, visto que seu sonho era ser enchido de licor de menta com gelo. Porém o copo lhe contou que viu uma embalagem escrita ‘Lembrança de Campos do Jordão’ e a xícara quase teve um “derrame”. Em suas primeiras memórias esse nome era constante e sabia que isso tinha importância, e o escrito em seu fundo não deixava mentir: Made In Brazil. Lembrança de Campos do Jordão.

O Copo e a Colher

Julho 20, 2009

capítulo/episódio 1 (Piloto)

Toda vez que colocavam algo nele, ele não sabia se estava meio cheio ou meio vazio. A xícara mais velha do armário teimava em dizer que ele ficava meio cheio. Isso o perturbava e o fazia pensar em saltar da mão da criança mais fraca da casa. Mas uma vez no escorredor, encostou em um prato, e começaram a conversar. O prato disse que já havia caído por esse motivo, pois estava se sentindo muito cheio e não aguentava o peso da comida, e não quebrou, e que talvez fosse besteira sua tentativa.

O copo ao ser enxugado, recebeu em seu interior algumas colheres. E não pode deixar de se apaixonar por aquela de cabo colorido. Como brilhava seu aço inox. Descobriu que se tratava de uma colher de sobremesa. Daquele momento em diante, soube que sempre estava meio vazio, nem o prato, nem a xícara mais velha, podiam contrariá-lo agora, pois só se sentiu completo quando aquela colher descansou dentro dele.