capítulo/episódio 7
Eram dias obscuros no armário, havia muitos pratos sujos e tigelas ocupadas. O forro de papel do armário estava rasgando e ninguém na casa usava os talheres de sobremesa. Algo estava errado. As xícaras de café saiam e voltavam com uma rapidez espantosa. Já não restava panela alguma na prateleira de cima do armário. Eram dias obscuros. O copo se via no reflexo de um de seus cinco copos-irmão, e reparava em como era meio torto, meio desfocado. Pensava em como poderia continuar a procurar o pires, porque não aguentava mais olhar pra xícara mais velha e sentir que ela estava triste. Sonhou que era um dos humanos da casa, e nas imagens, todos tinham cabeças de chaleira. Todos soltavam fumaça pelo nariz. Ele, copo, era um deles. Mas do armário, só ele estava ali. O copo estranhava a condição e sabia, tinha consciência de que era um sonho, mas estava gostando. E se lembrou do que Dona Claudia disse e caminhou com sua cabeça-chaleira até o quintal. Avistou ao fundo, do lado do tanque de lavar roupa, o gato. Olhou em todas as direções e não encontrou o pires. Seguiu o gato pela casa, que carinhosamente pediu que o copo lhe fizesse um afago, deitando no sofá depois disso. Viu as crianças. Elas pareciam copos cheios de água que se equilibravam para não transbordar. O menino mais velho pegou uma panela (panela que era mesmo uma panela) no armário e o mais novo pegou um garfo (garfo que era mesmo um garfo) na gaveta. Houve uma encenação de luta e o gato miou muito alto. Quando o copo percebeu, viu o gato dentro da panela e com o garfo cravado nas costas. Sentindo pavor da situação, pegou o gato e sem saber o que fazer direito, pensou em jogá-lo na lata do lixo. E quando abriu a lata, teve outra surpresa. Lá estava o pires da xícara.